Actualidade e Cultura Judaica por Marco Moreyra



Falecimento de Simon Wiesenthal


"Os criminosos que procurei, encontrei-os. Sobrevivi a todos eles", disse um dia Simon Wiesenthal, sobrevivente do Holocausto do III Reich de Adolf Hitler que consagrou a sua vida à captura dos criminosos de guerra nazis. Não sobreviveu, porém, à doença que o acometeu e matou ontem em Viena, onde residia, aos 96 anos de idade, o maior caçador de nazis que averbou a detenção de 1100 dos algozes que lhe roubaram a família mas não a temperança nem o sentido de Justiça.

O veterano judeu conseguiu levar a julgamento até Adolf Eichmann, o arquitecto da tenebrosa "Solução Final" de Hitler, capturado em 1960 por agentes israelitas em Buenos Aires, Argentina, tendo sido julgado e executado pelo Estado hebraico no ano seguinte. "Quando o Holocausto terminou em 1945 e o mundo inteiro foi para casa tentar esquecer, ele continuou a recordar-se do genocídio", disse o rabino Marvin Hier, do Centro Wiesenthal, fundado pelo caçador de nazis para a recolha e tratamento sistemático de informação que pudesse conduzir a detenção dos nazis em fuga. "Não esqueceu. Tornou-se o representante permanente das vítimas, determinado a levar à Justiça os autores do maior crime da História", declarou Hier.

Talvez nenhum outro estivesse investido de tanta legitimidade moral como Wiesenthal, decorrente do sofrimento indizível que vivenciou entre 1941 e 5 de Maio de 1945, quando foi libertado pelas tropas americanas no campo de Mauthausen, na Áustria, após ter passado por outros cinco, incluindo Buchenwald. Pesava menos de 45 quilogramas.

O esforço de Wiesenthal foi reconhecido pelo secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan, que se mostrou agradecido, à semelhança de vários líderes mundiais "O seu trabalho no Centro Wiesenthal - organização não-governamental acreditada junto da ONU e da UNESCO (Agência das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura) - para promover a tolerância e lutar contra o anti-semitismo foi importante para os próprios esforços da ONU neste domínio".
Nascido a 31 de Dezembro de 1908 numa família judia na cidade de em Buczacz, perto de Lvov, que integrava o Império Austro-Húngaro e que, após a I Guerra Mundial, passou para a Ucrânia, mudou-se com a mãe e restante família para Viena de Áustria, após a morte do seu pai na I Grande Guerra. A sua candidatura ao Instituto Politécnico de Lvov foi-lhe negada devido a restrições na admissão de judeus. Assim, ingressou na Universidade Técnica de Praga, onde se licenciou em Arquitectura em 1932, trabalhando em Lvov - entretanto absorvida pela URSS - após ter casado, em 1936, com Cyla Mueller.

Em 1939, Alemanha e URSS assinaram o pacto de não-agressão e acordaram a divisão da Polónia. O Exército Vermelho entrou em Lvov e começou o martírio de Wiesenthal, cujo padastro foi detido pelo NKVD (Comissariado do Povo para os Assuntos Internos - polícia soviética) morrendo na prisão. O meio-irmão foi abatido a tiro e Wiesenthal viu-se obrigado a fugir, tendo conseguido iludir a deportação para a Sibéria, juntamente com a esposa e a mãe, subornando o comissário do NKVD. Mas não escapou à fúria nazi, e foi detido em 1941.

No início de 1942, os nazis decidiram executar a "Solução Final" para o "Problema judeu" - Aniquilação", que matou cerca de seis milhões de judeus, e em Agosto desse ano, a mãe foi enviada para o campo de Belzec. Em Setembro, a maior parte da família da mulher estava morta - no total, sucumbiram 89 elementos de ambas as famílias. Wiesenthal e Cyla, cujo cabelo louro a ajudou a passar por polaca, conseguiram escapar do campo em que estavam presos nesse ano fatídico, mas foi recapturado. Um e outro julgavam-se viúvos, mas reencontraram-se e tiveram um filho em 1946. Cyla morreu em 2003.

Após a guerra, Wiesenthal ajudou os Aliados a recolher provas dos crimes de guerra nazis e, em 1947, fundou o Centro de Documentação Judaica em Linz.

Outro momento de glória para Wiesenthal, além da captura de Eichmann, foi a localização na Áustria, em 1963, de Karl Silberbauer, o oficial da Gestapo que prendeu a família de Anne Frank, a menina alemã judia cujo diário se tornou famoso no mundo inteiro. O ex-oficial admitiu ter capturado Anne Frank, o que desacreditou a propaganda neonazi que proclamava os diários falsos. Em 1967, Wiesenthal localizou o comandante do campo de Treblin-ka, Franz Stangl.

Simon Wiesenthal gostava de dizer que não procurava "vingança, mas Justiça". De acordo com um artigo no site do Centro Wiesenthal, o caçador de nazis explicou uma vez as suas motivações nestes termos "Quando chegarmos ao outro mundo e encontrarmos os milhões de Judeus que morreram nos campos e eles perguntarem 'O que fizeram vocês?', teremos muitas respostas. Um dirá 'Eu tornei-me joalheiro', outro dirá, eu fiz contrabando de café e de cigarros americanos', outro dirá, 'Construí casas', mas eu direi 'Eu não me esqueci de vocês'".
in Jornal de Notícias de 21-09-2005


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