Actualidade e Cultura Judaica por Marco Moreyra



Manuais com erros e preconceitos


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Simplesmente chocante o resultado de um estudo feito por Esther Mucznik aos manuais escolares que resulta na triste conclusão que os nossos filhos estão sujeitos a censura, ignorância e preconceito através dos livros que servem de base para a sua aprendizagem. Um artigo do Expresso desta semana.

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Esther Mucznik: “Estamos a educar gerações na mais completa ignorância da cultura judaico-cristã, a base da nossa civilização”FOTO NUNO BOTELHO

“Cuidado com aquele malandro, que ele é um verdadeiro judeu. Os judeus habitam nas judiarias. Não faças judiarias ao animal.” Este texto de um manual escolar da Texto Editora (Maria Ascensão Teixeira e Maria Assunção Bettencourt) foi apresentado a alunos do 9º ano, pedindo-lhes que indicassem o significado dos “vocábulos” destacados. Mereceu um protesto formal, junto do Ministério da Educação, do presidente da Comissão de Liberdade Religiosa, Menéres Pimentel, lamentando “a recuperação de uma linguagem preconceituosa, que em nada ajuda a compreensão da língua e da história de Portugal, servindo apenas para reforçar os estereótipos sobre a comunidade judaica”. Considerando “grave” a situação, pediu ao Ministério que corrigisse o texto.

O caso foi o ponto de partida para a Comissão iniciar uma pesquisa a todos os manuais escolares, aprovados para o corrente ano lectivo, nas disciplinas de língua portuguesa, história e educação cívica, do 5º ao 12º anos, com o objectivo de verificar como eram descritas as religiões. As conclusões confirmam que este caso está longe de ser o único.

“As religiões estão no centro de conflitos por todo o mundo, mas em Portugal a escola está a ensiná-las, em geral, com erros históricos, estereótipos, preconceitos, simplificações abusivas e até censura, com omissões graves de factos históricos”, sintetiza Esther Mucznik, autora do estudo e representante da comunidade judaica na Comissão de Liberdade Religiosa.

O cristianismo é “muitas vezes associado ao obscurantismo e ao atraso e apresentado como a primeira religião monoteísta, com Jesus a nascer numa Palestina inexistente naquela época”, afirma a autora, que dá outros exemplos: “O judaísmo é quase ignorado - em Portugal praticamente só existiram quando foram mortos pela Inquisição - e os estereótipos grosseiros abundam”; o “islamismo é um misto de exotismo e definições que desvirtuam os fundamentos do islão, apesar das influências da presença árabe em Portugal, estejam, em geral, positivamente retratadas”.

Só estas três religiões foram encontradas nos textos escolares. Outras confissões como hindus, budistas ou bahais, presentes em território nacional, foram censuradas.

“Nunca pensei que o panorama fosse tão mau”, sublinha Esther Mucznik. “Estas idades, dos 11 aos 15/16 anos, são decisivas na formação dos adolescentes, e não há nos manuais uma introdução séria ao fenómeno religioso, onde as explicações pecam por simplistas e falta de rigor”, sustenta. “Estamos a educar gerações inteiras na completa ignorância, por exemplo, da cultura judaico-cristã, que é simplesmente a base da nossa civilização”, salienta ainda a investigadora.

O líder islâmico, xeque David Munir, tem percepção da “ignorância e estereótipos” sobre as religiões em geral e sobre a sua em particular. “Quando jovens estudantes visitam a mesquita fazem perguntas com pressupostos errados e quando pergunto onde aprenderam aquilo respondem ‘nos livros da escola’…”. David Munir estranha que isso aconteça “quando o acesso à informação correcta é tão fácil. Basta os autores irem à internet ou mesmo contactar-nos”.

O director da faculdade de Teologia, da Universidade Católica, Peter Stilwell, conhece a “deformação” com que os “dados históricos e doutrinais” são ensinados. “Aprender bem as religiões é uma questão cultural vital no mundo globalizado, no qual os jovens vão estar em contacto com outras culturas e tradições. É essencial conhecê-las para saber respeitá-las.”

Por isso, quer Stilwell quer Munir subscrevem as recomendações deste estudo - cuja divulgação pública será feita em Março - que Menéres Pimentel vai apresentar ao Ministério da Educação.

Esther Mucznik garante que não se trata de querer “proselitismo nas escolas”, mas uma “abordagem rigorosa”: “os manuais devem ser lidos por especialistas em ciências religiosas e o Ministério tem que reflectir sobre a possibilidade destes temas serem disciplina obrigatória para evitar erros que deformem o conhecimento dos jovens”.

Em resposta ao protesto inicial da Comissão de Liberdade Religiosa, o Ministério da Educação recomendou à editora que suprimisse “o exemplo apresentado, de forma a garantir o respeito pelas outras culturas”. A editora retirou o texto.

Quanto aos novos casos apresentados neste estudo vão ter uma análise certamente mais demorada. Em resposta ao Expresso, o Ministério da Educação afirma que “a responsabilidade pelos manuais adoptados está do lado das escolas e dos professores” e que, “quando estiverem certificados (por uma comissão recém-criada que os vai avaliar) estará do lado do Ministério”.

Neste momento, está em curso o teste de metodologias de certificação, incidindo em todos os manuais de Matemática do 9.º ano. O objectivo é estabelecer critérios e mecanismos para avançar com a regulamentação da lei de avaliação de manuais.

in Expresso por Valentina Marcelino

Alguns dos exemplos encontrados:

(Proposta de exercício). Actualizar a figura do judeu de Gil Vicente sob a forma de “um israelita fanático que participa em acções terroristas contra palestinianos”
AULA VIVA 9º ANO, João Augusto da Fonseca Guerra e José Augusto da Silva Vieira, Porto Editora

“Mulheres - talvez o exemplo mais escandaloso da discriminação de um tipo de pessoas o que os países muçulmanos fazem às mulheres. Aí, elas não só estão submetidas ao marido, como não podem sair sozinhas, e não têm virtualmente direitos nenhuns”
LÍNGUA PORTUGUESA 7, Maria Ascensão Teixeira e outros, Texto Editores

Além destes princípios (os 5 pilares do Islão), que devem ser integralmente respeitados, desde logo se estabeleceu ao crente a obrigação da jihad, a guerra santa, destinada a espalhar a fé”
O TEMPO DA HISTÓRIA, 10º ANO, Célia Pinto de Couto, Maria Antónia Rosas, Porto Editora

“O cristianismo conservou do judaísmo uma característica fundamental: a sua intolerância (…) o fanatismo e o sentido totalitário da sua doutrina”
(…) CADERNOS DE HISTÓRIA, 10º ANO, Pedro Almiro Neves, Porto Editora

“Aos trinta anos, Jesus começou a pregar uma nova doutrina baseada na crença num único Deus (monoteísmo)…”
HISTÓRIA E GEOGRAFIA DE PORTUGAL - 5º ANO, Edite Correia Nunes e outros, Texto Editores

“Podem resumir-se a quatro as causas do antijudaísmo em Portugal no séc. XVI: os judeus enriqueciam de forma pouco clara, sendo-lhes atribuída a ganância e a usura; ocupavam profissões importantes em forte percentagem, o que dificultava às outras pessoas o acesso a elas; assumiam grande prestígio sociopolítico (…), eram fanáticos seguidores da sua religião, desrespeitando ao mesmo tempo valores e costumes cristãos“
PONTO E VÍRGULA, LÍNGUA PORTUGUESA, Constança Palma e Sofia Paixão, Texto Editores

“Justificações”

Da Porto Editora, Pedro Almiro Neves, diz que a sua fonte é a obra do historiador Pedro Grimal, que noutras páginas do manual há outras pontos de vista e que se pretende que os alunos aprendam a “fazer escolhas”. Maria Antónia Rosas afirma que pretendeu “desfazer o preconceito que o ideal da guerra santa pertenceu exclusivamente à religião muçulmana”. As autoras comparam a «jihad» com as cruzadas. Fonseca Guerra sublinha que os “casos de violência extremista merecem reflexão oportuna”. Da Texto Editores, Edite Correia Nunes, sobre o “erro” de tornar o cristianismo a primeira religião monoteísta, diz que pretendeu “simplificar”. Quanto às outras citações, a editora diz que o livro de Maria Ascensão já não está à venda e não comenta o texto de Constança Palma ou Sofia Paixão.

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