Actualidade e Cultura Judaica por Marco Moreyra



"Judeus" Messiânicos - o paradoxo bíblico (Parte II)


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O Tanach (Biblia Judaica) tem referências proféticas a Jesus?

Os “judeus” messiânicos acreditam que Jesus foi o Messias prometido, e tentam provar isto citando várias passagens da Bíblia Judaica. Tais citações podem parecer impressionantes, espantosas e confusas para alguém com uma noção apenas vaga do Judaísmo e sem domínio do idioma hebraico.

A resposta judaica

1) A única razão pela qual tais passagens, as assim chamadas “provas textuais”, parecem estar aludindo a Jesus se deve ao facto de terem sido mal citadas, mal traduzidas ou tiradas fora de contexto, como os exemplos seguintes demonstram claramente. Qualquer trabalho escrito, se mal traduzido ou citado fora de contexto, pode ser levado a sugerir significados que jamais foram intencionados.
O Novo Testamento não foge à regra. Por exemplo, no Novo Testamento (Lucas 14:26), Jesus é citado como tendo dito:
“Se alguém vem a mim e não odeia seu próprio pai e mãe, mulher e filhos, irmãos e irmãs; sim, e até a sua própria vida, ele não pode ser meu discípulo”.
Uma leitura inicial deste verso dá a impressão de que uma pessoa deve odiar a sua própria família e até a si mesma, como pré-requisito para ser cristã. Entretanto, qualquer cristão que se defronte com uma leitura literal desta passagem reagirá defensivamente e insistirá que este verso não quer dizer o que parece. Somente aparentam ser desta maneira, ele ou ela explicarão, porque está sendo lido fora de contexto e sem tradução apropriada.
Este é exactamente o ponto onde queremos chegar. O que um versículo diz e o que quer dizer podem ser duas coisas completamente diferentes. Antes de se querer entender qualquer versículo apropriadamente, seja das Escrituras Judaicas ou seja do Novo Testamento, ele deve ser lido dentro de seu contexto e traduzido minuciosamente.
Similarmente, quando um missionário cita um verso das Escrituras Judaicas, temos de nos certificar de que o versículo está a ser trazido correctamente. Por exemplo, o Salmo 22:17 da Bíblia Judaica quando traduzido correctamente lê-se: “Eles cercaram minhas mãos e pés como um leão*”, referindo-se ao Rei David sendo perseguido pelos seus inimigos, os quais são habitualmente citados como um leão (como em Salmos 7 e 17). Contudo, quando lida fora de contexto e mal traduzida, como “Eles furaram minhas mãos e meus pés”; como aparece em versões cristãs, a passagem intencionalmente faz evocar pensamentos sobre Jesus.
Este exemplo demonstra apenas um dos muitos versos que os missionários distorcem e traduzem mal para servirem a seus propósitos. O Judaísmo tem uma resposta e uma explicação para cada um destes exemplos. A regra de ouro é sempre perguntar: “Estes versos estão a ser lidos dentro do seu contexto e com uma tradução exacta?”. Infelizmente, a maioria dos “judeus” messiânicos aceita cegamente a interpretação cristã, sem que nunca tenham ouvido falar ou compreendido correctamente visão judaica.
Após uma descomprometida reavaliação de ambos os lados, centenas de “judeus” messiânicos (anteriormente Judeus) têm retornado para o Judaísmo.

2) Os missionários habitualmente utilizam o Novo Testamento como prova de que eventos ou profecias na suas passagens mal traduzidas se cumpriram. Entretanto, para alguém que está familiarizado com a Bíblia Judaica a “inequivocabilidade” do Novo Testamento é questionável.
Considere os seguintes exemplos:
a) Em três lugares diferentes na Torah, (Bereshit 46:27, Shemot 1:5 e Devarim 10:22) afirma-se que o patriarca Jacob foi ao Egipto com um total de 70 pessoas. Em Atos 7:14 o Novo Testamento diz incorrectamente que este número de pessoas é 75.
b) Hebreus 8:8-13 do Novo Testamento, citando Jeremias, afirma que Deus trocou o Seu Pacto com os judeus por um “Novo Pacto”, afirmando que, já que os judeus não mantiveram o “Velho Pacto”, Deus “não se importava mais com eles”.
No entanto, o texto original em hebraico, de Jeremias 31:32 na Bíblia Judaica, não diz que Deus não se importava mais com eles, mas sim que Ele “continuou como um esposo para eles”. Alguns cristãos interpretam a sua tradução para significar que Deus rompeu o Seu Pacto e rejeitou o Povo Judeu. Isto é completamente inconsistente com a assertiva bíblica de que os mandamentos são eternos (Salmos 119:151-152) e de que Deus prometeu jamais rejeitar ou romper o Seu Pacto* com os judeus (Juízes 2:1 e Levítico 26:44-45)

* Para uma explicação mais detalhada sobre as Sete Leis dos Filhos de Noé, veja o livro The Path of the Righteous Gentile, de Chaim Clorfene e Yakov Rogalsky (Southfield: Targum Press, 1987).
** O termo “Ka’ari” significa claramente como um leão, como está evidente também da maneira como é usada em Isaías 38:13.
Escrito e compilado pelo Rabino BenTzion Kravits.
Adaptação: Marco Moreyra

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